Dois lados do campo

A admiração, simpatia e entusiasmo que Richarlison tem despertado no Brasil não vêm apenas de seu futebol bonito e eficiente. Temos outros jogadores, até melhores. O que diferencia Richarlison é algo que nós brasileiros perdemos a capacidade de perceber e valorizar – mais agora que antes: o caráter. O garoto exala bom caráter na imagem, na discrição, nas atitudes, até na timidez de seu comportamento público.

O Brasil nunca cobrou das pessoas públicas e privadas. Políticos, artistas, os agora influenciadores, à medida que sobem na exposição e fama comportam-se com vulgaridade e exibicionismo grosseiros e ofensivos. Na falta de valores permanentes, o brasileiro sempre viu no sucesso e na riqueza as virtudes basilares. Os velhos vocábulos que complementam a noção de caráter vogam perdidos no dicionário.

Recato, contenção, discrição, para ficarmos apenas no futebol, Richarlison é o exato oposto de seus pares, milionários pela propaganda e idolatrados pelo poder da imprensa, exauridos pelo consumismo ostensivo e pelo novo riquismo escandaloso – até compreensíveis considerando a origem humilde, regra no meio. Richarlison revela o que falta na generalidade dos jogadores de futebol: a conexão com a nacionalidade.

Daí o contraponto com Neymar, seu exato oposto e paradigma dos defeitos aqui assinalados. Richarlison, ao contrário de Neymar, não por acaso percebeu que Bolsonaro era a antítese do Brasil generoso e fraterno. Se do contraponto surgir outra divisão, como a que Jair Bolsonaro instituiu nesta terra, Richarlison e Neymar são, respectivamente, o lado claro e o lado negro do Brasil de hoje.

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Bosta Nato

Nos idos pré 1964, Carlos Lacerda apelidou Amaral Neto de Amoral Nato, um deputado golpista e brucutu, que subiu com programa de televisão exato como o fez o ex-deputado Roberto Jefferson, o que recebeu com tiros de fuzil e granadas o destacamento da PF que foi prendê-lo (a PF agiu cumpriu a missão com requintes de gentileza, respeito e cordialidade, ordenada pelo ministro da Justiça e comandada pelo presidente da República). Mesmo com falta de imaginação poderíamos chamar de Valdemar da Bosta Nato aquele deputado espertinho que quis anular o segundo turno da eleição.

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No Panteão Simonal

Se o brasileiro tivesse memória já teria incluído Neymar no panteão Wilson Simonal, do ídolo que queima prestígio e respeitabilidade pela ilusão de impunidade. Simonal sumiu de cena na plenitude do sucesso e morreu esquecido porque teria usado relações da ditadura para prender e investigar seu contabilista, a quem atribuía desvios de dinheiro. O cantor morreu alcoólatra e esquecido e seus filhos lutam até hoje para limpar sua memória.

Houve no caso Simonal a mesma rejeição que passa a atingir Neymar: num caso a proximidade com a ditadura que matava, noutro com Jair Bolsonaro, que pretende reinstitui-la. O craque visitou Bolsonaro várias vezes no auge da gestão criminosa da pandemia, ambos sorridentes em fotos, e ainda há pouco prometeu dedicar seu sucesso na Copa ao presidente, a quem apoiou na eleição pelos “valores da religião e da família”.

Um carma vem visitando o craque, que vive na sem cerimônia indulgente da criança rica, com indulgência plenária. incensado pelo gosto cego da plebe. Como na imagem de Camões Simonal e Neymar caíram no “engano d’alma” que a vida atalha e pune. O primeiro aderiu à ditadura e o outro adere a Bolsonaro, que se confunde com a ditadura, que defende e não e tenta replicar com generais prepotentes e seguidores e desvairados.

O Brasil vinha tolera Neymar desde seu namoro exibicionista com Bruna Marquezine. O Brasil torceu o nariz quando o craque importou a garota de programa a Paris e lá protagonizou cenas de agressão que chegaram à polícia paulista. A chegança com Bolsonaro não soa como patriótica opção política quando se sabe do milionário débito que Neymar Sr e Jr buscam negociar na Receita Federal – como o afagoque Simonal obteve da ditadura militar.

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O exemplo vem de cima

Mania brasileira de imitar os gringos. Bolsonaro dá uma de Trump tupinambá e discute o resultado da eleição que o derrotou. Ainda manda sua caterva invadir o Congresso na diplomação de Lula, enquanto fica em casa fingindo dodói. Mais uma réplica nesta semana: depois de dois ataques de atiradores com mortes em boate e supermercado nos EUA, um moleque brasileiro invade escolas, mata três e fere outros onze, entre alunos e professores.

Detalhe: o atirador vestia traje de combate com braçadeira nazista e matava com armas do pai, soldado de PM do Espírito Santo. Essas imitações, coincidindo com o período e o espírito bolsonárico, não são gratuitas. Ou é enchente ou coisa de gente, que nem a do jaboti encontrado no alto da árvore, ali onde Damares Alves encontrou Cristo (e os bebês do abuso sexual no Pará – que denunciou e hoje foge da intimação para provar).

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A inveja é uma lerda

Torcedores argentinos fazem campanha contra Mbappé, da seleção francesa, porque este namora modelo transgênero. Gente despeitada e ciumenta. Preferiam que Mbappé, do PSG, namorasse Di Maria, o argentino que joga no mesmo time.

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A vida não imita o cinema

Um general de pijama sugeriu que o ministro Alexandre de Moraes se inspire em Xerxes, o rei da Pérsia derrotado por Leônidas na batalha das Termópilas no filme 300, com Gerard Butler e Rodrigo Santoro. O general extrai a moral para assustar o presidente do TSE: “nem sempre o vencedor da batalha é vencedor da guerra.” Xerxes venceu a batalha mas perdeu a guerra no Peloponeso. Verdade absoluta.

Em 1964 os militares brasileiros venceram a batalha, mas a democracia venceu a guerra. Talvez o general acampe com as vivandeiras de Jair Bolsonaro. Falando no exército de Bolsonaro, dos caminhoneiros, mínions a seguir o líder mau caráter, dos empresários parasitas, da classe média furibunda e dos gângsters com mandato, enriqueceria suas luzes bélicas no filme O incrível exército Brancaleone, com Vittorio Gassmann.

O general tem lá suas certezas, direito dele. Mas com certeza na excelente Biblioteca do Exército ele encontraria fontes autorizadas sobre as batalhas da História. Outra coisa, a comparação é meio esquisita, porque, apesar de combater com seus parcos 300, Alexandre de Moraes está mais para Leônidas que para Xerxes. Nosso general nunca deve ter participado de uma guerra real fora do cinema.

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Golpe ou rancho

O presidente Jair Bolsonaro reassumiu depois de duas semanas a lamber as feridas da derrota. Seu primeiro compromisso foi reunião com os comandantes das forças armadas; o segundo será com as vivandeiras que cercam os quarteis a implorar pelo golpe. Qual o tema das reuniões? Se não for o golpe, pode ser o reforço do rancho para as vivandeiras. Seria a primeira vez na história desse país com um golpe durante a Copa.

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Sem mico

Gretchen, ex-atriz pornô, teria pago mico no Qatar ao fazer cobertura no estádio errado. Errado. Gretchen sempre fez as coberturas nos lugares certos. Quem pagou mico foi a imprensa.

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Meia verdade basta

O vice presidente Hamilton Mourão em boa hora foi descartado por Bolsonaro. Não podia ficar no governo, um vice maior que o titular, o inteligente fazendo sombra ao imbecil. Daí porque foi descartado e saiu por cima elegendo-se senador. Fosse presidente, daria o golpe “dentro das quatro linhas”, como diria Bolsonaro. A inteligência de Mourão não tem o refinamento da de um Marco Maciel, o vice invisível e mudo que garantiu o governo FHC. Mas diante da aridez do deserto brasileiro, Mourão se sobressai.

Veja o último exemplo: ele chama de “estado de exceção” as decisões do ministro Alexandre de Moraes, do TSE. Mas apoia o resultado das urnas, resultado do “estado de exceção”. Como o ministro presidente do TSE condicionou a revisão do resultado as urnas a um exame completo, incluído o primeiro turno, o vice presidente deu como consumado o resultado das urnas no segundo turno, admitindo como legítima a eleição de Lula. Porque a revisão do primeiro turno poderia comprometer sua eleição de senador.

Essa diferença, que nem chega a ser sutil, para sorte do senador eleito não será percebida por seus apoiadores, para quem ele apenas acena como um potencial adquirente dos salvados do incêndio de Jair Bolsonaro.

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O ditador do zap

Se Bolsonaro fosse um caudilho de verdade, dos cucarachas bananeiros de triste memória, não o covarde que se esconde sob a erisipela, já teria embarcado na moto, o Véio da Havan na garupa esfregando o queixo na nuca presidencial, e partido para comandar os bloqueios de estradas em apoio aos motoristas dos empresários golpistas. Não; prefere comandar o ódio e o golpe de longe, pelas redes sociais. Um ditadorzinho do zap.

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