O motoqueiro infernal

Charge faz menção às motociatas realizadas pelo governo Bolsonaro durante a pandemia

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Você jamais saberá

A música tema do filme Hello, Frisco, Hello, com Alice Faye e John Payne nos papéis principais, direção de H. Bruce Humberstone. You´ll never know ganhou o Oscar de 1943. A composição de Harry Warden e Mark Gordon para o filme teve sua primeira, clássica e considerada insuperável gravação na voz de Alice Faye. John Payne, o parceiro, galã de bigode, que canta ao telefone, fez carreira em filmes do final dos anos 30 a meados dos 50, com clássicos faroestes (contracenando com Ronald Reagan).

Embora não sendo cantor, a interpretação de Payne é defensável e adequada (considerando que entre os atores-cantores da época pontificavam Bingo Crosby e Howard Keel). Fala-se que teve até agora perto de 500 gravações, entre elas as duas últimas, com Rod Stewart e Michael Bublé. O Brasil conhece uma versão com Antonio Marcos, Você jamais saberá, querida. Alice (1915/1998) filmou pouco, deixou o cinema no auge do sucesso, mas sua voz e sua gravação perduram como o registro tanto pioneiro como insuperável.

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Dorian Dias

O senador Álvaro Dias declara que não será candidato a presidente da República. Sua prioridade é eleger Sérgio Moro. A primeira sugestão foi factoide criado pelo senador; a segunda, uma tentativa de factoide. Álvaro tem medo que Moro se candidate a senador e tire dele Álvaro sua sinecura de décadas. O senador informa que tentará a reeleição: fosse funcionário público, não senador eleito, estaria na aposentadoria compulsória, por idade. Nosso decano do Senado não pensa em aposentadoria. Apesar da idade pode encarar outros oito anos de mandato.

Com invulgar talento de se manter jovem, o senador não sofre com o fardo da atividade parlamentar: não atua em plenário, não se desgasta em comissões e não fustiga o desgoverno nas redes sociais. Ao contrário: com os outros senadores fantasmas do Paraná, mantém um silêncio ensurdecedor com os desmandos do governo Bolsonaro, de quem fez recente absolvição pífia.  Álvaro Dias é o Dorian Gray da política paranaense, os dois com um quarto onde trancam o retrato que envelhece por eles e lhes garante uma juventude vitalícia.

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Presidente sem compostura, país degradado

Jair Bolsonaro informa que irá tirar recursos da Educação e da Saúde para pagar o “auxílio modess” – a indiferença do brasileiro pela decência e pela compostura de seus homens públicos chegou ao grau máximo de degradação com o atual presidente da República. Que, além de ser destituído do senso de gravidade exigido pelo cargo, revela ser destituído do conhecimento das funções do Estado: auxílio para suprir absorventes para mulheres pobres neste Brasil que atingiu níveis explosivos de pobreza absoluta faz parte tanto da Saúde quando da Educação.

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O crepúsculo do macho

A masculinidade, as virtudes viris, o signo do macho recebem golpe de dois dos mais famosos e reputados representantes da categoria. Daniel Craig e Jair Bolsonaro fazem revelações públicas que chocam. Daniel Craig, o mais completo Agente 007 depois do eterno Sean Connery, revela que frequenta bares gays. Ele ressalva que é para evitar brigas, nunca para conseguir parceiros. Acredite quem quiser, pois no teatro e cinema ingleses (e também na sociedade) remanesce o germe da homossexualidade definida na era vitoriana. Craig encerrou sua carreira no papel e é casado com mulher linda, o que, todos sabem, não é garantia da masculinidade heterossexual – e o heterossexual aqui é indispensável, pois há homossexuais que sobejam na virilidade. Quero crer que o 007 se prepara para viver Dorian Gray.

O outro símbolo, Jair Bolsonaro, informa que chora no banheiro; e acrescenta que a mulher o considera o maior dos machões. Releve-se a segunda parte, a da mulher, pois nem o amor mais exaltado ou a ambição mais desmesurada justificam a uma mulher envolver-se com o presidente do Brasil. Aceita-se, na minha terra costuma-se dizer sobre mulher bonita com homem mala que a melhor espiga vai sempre para o pior porco. Bolsonaro chora no banheiro, pode? Ele não diz por quê. Seria pelas vítimas da pandemia, que ele assistiu como um Nero ao incêndio de Roma? Seria pelas besteiras que diz a cada vez que abre a boca? Impossível. Ele chegou aonde está exato fazendo isso. Em suma, Bolsonaro chora no banheiro porque está tão vazio nos intestinos quanto no cérebro.

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O olho humano do nazista

Curzio Malaparte (1898-1957), italiano, escritor, dramaturgo e cineasta, cobriu como correspondente a invasão da União Soviética pelo exército da Alemanha nazista na II Guerra Mundial. Lançada em 1944, com sucessivas traduções e reedições – a última brasileira de 2021 pela Editora Alfaguara. Malaparte expõe a crueza e a crueldade de uma das campanhas militares mais violentas da História (os números, que variam, contam 6 milhões de mortos apenas entre os russos). Chama-se Kaputt, o livro de Malaparte, que sem favor é uma leitura essencial sobre o período nazista. Se leituras referidas ou indicações de leitura não fossem um abuso, diria aqui que o Kaputt é imperdível…

O livro recolhe episódios que transitam entre um quase anedótico e um profundamente trágico. De tantos lembro um, da leitura que fiz há 40 anos. É do momento em que um combatente russo recebe do oficial nazista a possibilidade de ser salvo do fuzilamento sob uma condição: que o preso dissesse qual dos olhos do oficial nazista era verdadeiro. O preso apontou exato o olho de vidro. Quando o oficial perguntou-lhe como descobrira, o preso respondeu: “É o único que parece humano”. Malaparte conta que o preso foi poupado. O leitor fica na dúvida se o escritor não exagerou na ficção para demonstrar a desumanidade da guerra.

A analogia pode ser – e é – forçada, mas a cada vez que leio os absurdos que saem da boca de Jair Bolsonaro lembro imediatamente do oficial nazista da cena do Kaputt. Explico: o lado humano de Bolsonaro está exato naquilo que nele não é humano; uma humanidade que se expressa na negação de toda e qualquer generosidade ou empatia com o gênero humano. Os exemplos são tantos desde que assumiu o governo que sempre nos fixamos na última estupidez. Como a que proferiu em Aparecida, quando da celebração do feriado religioso. Ao lá chegar, recebeu a inevitável pergunta sobre os 600 mil mortos da pandemia. A resposta: “Não vim aqui para me incomodar”.

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Fiquei vendido

Lá das lonjuras de Dubai somos informados que o governador Ratinho Júnior negocia voos diretos entre Curitiba e a Xangrilá de areia. Fiquei vendido. O governador e nós outros coxinhas adoramos passear na Disney e nos abastecer em Orlando, na Flórida. Quem gosta de Dubai é periguete e novo rico. O governador começa a dispensar o seu melhor eleitorado. Cuidado que Roberto Requião adora levar os netos para Miami.

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O absorvente de dona Damares

A celeuma do absorvente grátis é uma metáfora da miséria brasileira. Primeiro, porque há cidadãs que precisam de absorvente grátis, pois não podem pagar um item essencial de higiene; a prova disso está na aprovação de emenda parlamentar para criar a despesa pública de distribuir absorventes. Segundo, porque um presidente da República é tão destituído de sensibilidade social que veta a lei que cria a despesa. A falta de sensibilidade prossegue na desculpa esfarrapada do presidente patologicamente mentiroso: se autorizasse a despesa cometeria crime de responsabilidade, uma vez que a emenda não estabeleceu a fonte de custeio dos absorventes. Além de mentiroso, ao presidente falta flexibilidade intelectual, tanto que tentou desqualificar a despesa dizendo que a emenda vinha de deputado petista; para o presidente se um petista for beatificado pelo papa, esse presidente desvairado e enlouquecido pelo ódio e pela ignorância manda o Itamaraty romper relações com o Vaticano. Sem falar que o deputado petista não aprovou sua emenda; isso fez a Câmara, incluído o Centrão do presidente.

No presidente brasileiro a ignorância nasceu gêmea da teimosia. A primeira é forte, irredutível, insaciável e indestrutível, a seiva vital da família Bolsonaro. Já a gêmea, a teimosia, é fraquinha, insegura, tem medo da própria sombra. O presidente a continua achando que mulher pobre não precisa de dinheiro para absorvente – a noção que ele tem da pobreza e do feminino está aberta ao estudo de psiquiatras, psicólogos e estudiosos de criminologia. Na questão dos absorventes a ignorância cedeu à teimosia e o presidente decidiu autorizar o fornecimento gratuito (uma Prevent qualquer, um laboratório associado a alguém bem situado já se capacitou a produzir absorventes de papel, caros e ineficientes; um parente próximo já se apresentou como lobista no Palácio do Planalto?). O drama da previsão de custeio e do crime de responsabilidade deixou de existir. Alguém deve ter lido o Insulto da semana passada com a receita de como resolver. A resistência ao absorvente grátis durou menos que a menstruação da ministra Damares Alves, que acrescentou um insulto à injúria do presidente.

Para poupar o presidente do vexame de se desmentir, a ministra Damares Alves, nominalmente da Mulher e da Família, adiantou-se para defender o veto de Bolsonaro: “a prioridade é o absorvente ou a vacina?” Isso partiu da mulher que dirige um ministério da área social, incluída a área das mulheres. O argumento da ministra não chega a ser infantil: é de imbecilidade e tolice ímpares, como se uma prioridade, a vacina, pudesse ser comparada a uma necessidade, o absorvente – e como se de ambas se pudesse excluir a atuação do Estado. Passado atestado de estupidez, no dia seguinte a ministra saiu-se com a maior das cretinices: “as mulheres pobres sempre menstruaram”. Ou seja, a mulher pobre que compre o absorvente e deixe de comer; ou que se proteja com folhas jornal; o decoro impede o Insulto de avançar em alternativas ao absorvente. Como Jair Bolsonaro criou para si e seu governo a impunidade e a indulgência perpétuas, ele autorizou sua ministra a liberar o absorvente. Agora as bolsomínias ricas também receberão absorventes gratuitos. Mas antes das pobres; estas vivem lambuzadas.

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Assertivo

O novo técnico do Paraná Clube declara que agora o time será “assertivo”. Significa que os jogadores deverão “assertar” o gol, o que não fazem há tempo.

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O rei esterca

Eu te provarei que um cavalo d’El Rey estercou à minha porta.

Gil Vicente (1465-1536). No Brasil, o rei esterca todos os dias, em todas as portas.

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