Um abraço

Lorena Pronsky é psicoterapeuta e autora argentina. Récita em português lusitano, como a maioria dos poemas publicados no Insulto. Motivo simples: os portugueses interpretam e divulgam melhor e com maior cuidado os poemas próprios e alheios. Sem contar que o português lusitano está mais bonito e lírico que o brasileiro.

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Bolsonaro subverte

O atentado da rua Tonelero

EM 1954, Getúlio Vargas como presidente constitucional, no auge de campanha de descrédito a seu governo, seu chefe de segurança Gregório Fortunato orquestrou atentado que feriu o jornalista Carlos Lacerda e matou o major Rubens Vaz, da Aeronáutica. A História registra como o Crime da Rua Toneleros. Lacerda era diretor da Tribuna da Imprensa e fazia ataques diários, desde que surgiu a candidatura de Getúlio, insuflando oposição à candidatura, à posse e ao governo do ex-ditador. Era o auge da Guerra Fria, com os militares brasileiros ainda aquecidos pela influência dos norte americanos a partir do convívio na Força Expedicionária Brasileira e de cursos realizados em escolas militares dos EUA.

Nessa época Getúlio seguia viés populista, medidas protecionistas e nacionalistas na Economia, com apoio da esquerda e medidas que induziam nos militares a analogia com a situação da Argentina, de um governo prestes a imitar a ditadura de Juan Domingo Peron. Este era o quadro existente antes do atentado da rua Toneleros, que agravou a resistência a Getúlio. A Aeronáutica instaurou inquérito para investigar o caso – embora o major Vaz não estivesse de serviço, intimando para depor o chefe da segurança de Getúlio; as Forças Armadas divulgaram manifesto exigindo a renúncia de Getúlio, que já vinha desgastado por denúncias de corrupção envolvendo filho e irmão seus, o famoso “Mar de Lama” da crônica histórica.

Mar de Lama, chefe da segurança presidencial em atentado contra opositor, forças armadas a exigir a saída do presidente da República. Corrupção no ministério da Educação, ex-ministro investigado e preso, a interferência do presidente junto à polícia que o prende para avisar o aliado da prisão iminente. Diferem detalhes na mesma essência: envolvimento dos presidentes, por si e interpostos agentes. As Forças Armadas ignoram essência em estranha inversão de valores – num caso ao futuro ditador concede-se a indulgência negada ao ex-ditador. Na rua Toneleros houve uma vítima; no ministério da Educação o criminoso é protegido. Sempre as digitais dos presidentes da República.

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Ele, a varíola; nós, os macacos

O PRESIDENTE da República lambuzou-se na lama de Milton Ribeiro, seu ex-ministro da Educação. Disse que nada sabia, mesmo tendo conversado com o ministro da Justiça e chefe da PF no dia em que esta faria batida na casa de Ribeiro. O ministro da Justiça e chefe da PF declarou à imprensa que não tratou do assunto com o presidente – uma desculpa pífia e esfarrapada, pois se não o fizesse seria demitido no dia seguinte, como aconteceu com Sérgio Moro quanto às investigações da PF em relação ao filho e amigos de Bolsonaro. Mas o ex-ministro Milton Ribeiro contou para a filha que foi avisado em telefonema do presidente sobre a batida.

Bolsonaro mente o tempo todo, acintoso, cínico e deslavado, sem qualquer consequência. O que significa que com mais esta mentira Bolsonaro continuará indene e impune. Ele interferiu mais vezes na ação da PF para favorecer parentes e aliados. O atual diretor geral da PF não está lá por acaso. Nem o ministro da Justiça – o primeiro delegado federal no cargo – tampouco está lá por acaso. Para eles a lealdade a quem devem o cargo está acima do dever institucional. Isso define o cúmplice, não o auxiliar no Estado de Direito. Bolsonaro criou um país transgênero: a polícia ajuda seu cúmplice; o ministro da Defesa é o general eleitoral.

Como em tantos casos, inúmeros, diários, cansativos a ponto de anestesiar a consciência e a opinião públicas, mais esta ficará por isso mesmo, pois Bolsonaro é indene, imune, intocável, irresponsável e inimputável. Este caso de interferência é gravíssimo e terá o mesmo destino da política omissa e criminosa durante o covid e seus 700 mil mortos. Quem está sob o coturno de Bolsonaro e escapou do covid, a intervenção do presidente no caso Milton Ribeiro é apenas uma pelota a mais em nossa varíola. Bolsonaro é a varíola. E os brasileiros somos os os macacos, as costas salpicadas de pelotas.

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A Casa Bolsonaro

OS MONARQUISTAS voltam à campanha para já neste 2022 restabelecer o império. Ainda não definiram qual dos trogloditas da família Bragança será o próximo imperador. Troglodita por troglodita, basta reeleger Bolsonaro. Primeiro, porque ele é imperador desde que tomou posse. Segundo, está qualificado, pois imperador não faz nada. Ruim por ruim, nem vai precisar Lei Áurea, porque com Bolsonaro vivemos na escravidão. Mas tem um problema: no império o filho mais velho sucede o pai. Imaginem o imperador Flávio.

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Sem malha a quem amealha

O MINISTRO Bruno Dantas, do TCU, instala uma Lava Jato especial para Deltan Dallagnol na questão das diárias milionárias da Operação. Nada diferente da versão original da República de Curitiba: um alvo seletivo, condenações dos suspeitos de sempre, uma boiada passando tranquila depois de saciadas as piranhas. No Brasil prefere-se restaurar a moralidade para alguns e deixar que os demais se locupletem.

Diárias como as de Dallagnol não são inéditas nem as únicas; acontecem em igual medida e sem controle em todas as áreas da alta burocracia do Estado. Nem TCU foge da regra. Dallagnol não escapa enquanto colegas na mesma situação passam pelas malhas flexíveis da rede do ministro Bruno Dantas. Dallagnol está na dupla situação, a de bode e a de expiatório.

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O Floriano de Bolsonaro

BOLSONARO vai levar seu ex-ministro da Defesa de companheiro de chapa. Não é como há 130 anos, quando eleitos Deodoro e Floriano o vice teve mais votos que o titular, pois disputaram em chapas separadas. Mas Floriano não descansou enquanto não derrubou Deodoro. Depois disso, o vice entrou em suspeição; no futuro alterou-se o sistema, a chapa única, para esconjurar o risco. Perda de tempo: Michel Temer derrubou Dilma com apoio do Congresso.

Poucos concordam com a frase de Marx de que a História acontece como tragédia e se repete como farsa. Não custa analogar: se Dilma foi a tragédia, Bolsonaro pode ser um Deodoro sofrendo golpe do vice Braga Neto. Porque se o brasileiro insistir na estupidez de reeleger Bolsonaro, haverá um Floriano para derrubá-lo pela exaustão do arbítrio e da estupidez, que sempre respingarão no vice pela cumplicidade tolerante. O Floriano de Bolsonaro pode ser Braga Neto. E Deus não acudirá, porque é do Centrão.

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Vai pra trás, meu Deus do Céu

BOLSONARO deu um chega-pra-lá explícito e expresso na vice-governadora de Santa Catarina. Foi hoje, em Camboriu, quando ela tentou ficar na mesma linha da frente com o Führer, que dispensou a louca dolicocéfala que um dia defendeu o pai, simpatizante do nazismo. Mandou embora a loura e manteve o Véio da Havan, vestido a caráter, ali como candidato ao Senado. Não surpreende, nem às mulheres que gemem e se contorcem adorando o Capitão. Essas mulheres rejeitadas, o equivalente bolsonarista das “companheira do grelo duro”, são as “milicianas do fuzil fumegante”. Bolsonaro é femeofóbico.

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Jacinta Passos, Cruz das Almas, Bahia

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Gado a gente marca

Caso inusitado foi registrado em Mirassol D’ Oeste, no Mato Grosso

TEM o cretino aí que gravou a ferro, no ombro, o 22 de Bolsonaro. Foi em exposição de gado. E depois os bolsonaristas chiam quando chamados de gado. Ensinou Vandré, “gado a gente marca, tange, ferra, engorda e mata”. Logo.

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É tudo bas fond

O MINISTRO da Justiça avisou o presidente que a polícia sob sua área de supervisão investigava o ex-ministro; o presidente telefonou ao ex-ministro dizendo que a polícia faria batida na casa deste. Depois o ex-ministro, orgulhoso, contou à filha, que contou a alguém, que contou para a imprensa.

Não é fake. Fakes são presidente, o ministro da justiça, o ex-ministro, a quadrilha real do país fake. O juiz que mandou prender o ministro é real. Mas todo cuidado é pouco, o judiciário deu de ser ora fake, ora real. Em festa do presidente da Câmara para homenagear Gilmar Mendes, o presidente reuniu-se a portas fechadas com Alexandre Moraes, o ministro que o processa.

Quanto ao juiz que soltou o ministro, teremos a prova em poucos os dias. Ele está na lista dos prováveis promovidos pelo presidente. É tanto fake que a gente duvida do real. Real? Ele não existe na terra da quadrilha. Na terra da quadrilha e seu chefe o real é fake e vice-versa. Porque o real são os bandidos e seu chefe.

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