De novo e de novo

JAIR BOLSONARO mais uma vez corre para recolher os cacos dos potes quebrados pelos filhos, desta vez a estupidez vomitada por Eduardo Bolsonaro sobre o restabelecimento do AI-5.

Mas, como o escorpião, Bolsonaro não nega sua natureza: desautoriza a fala do filho, mas atenua dizendo que ela foi deturpada. Parece que na família Bolsonaro ninguém fala português.

Sim, foi deturpada: Eduardo falou merda, nós entendemos bosta. Bolsonaro foi o precursor da Lei da Palmada. Nunca deu cascudos, pés-de-ouvido, chineladas e cintadas nos pançudinhos.

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Irresponsável, inconsequente

Se a esquerda radicalizar, a resposta pode ser novo AI-5.

DE EDUARDO BOLSONARO, filho número 03, ex-quase futuro embaixador do Brasil nos EUA e atual periclitante líder da bancada do PSL na câmara dos deputados.

Pois bem, e quando a direita radicaliza, como acontece desde a posse do pai do deputado? Teremos uma Sierra Maestra? Vivemos as provocações, mais fortes e radicais que as da esquerda, todos os dias, todas as horas, em todos os lugares, seja pelo presidente na pessoa física, seja pelo ventríloquo do presidente, o filho 02, marechal de campo das milícias digitais bolsonaras.

A frase do filho e o comportamento do pai desvendam, primeiro, a inaptidão de todos os políticos da família para o convívio dialético e conturbado da democracia representativa; segundo, e por causa disso, a desembuçada vocação de todos, do pai como educador e dos filhos como mal educados, para o regime autoritário. Nada há que justifique a ameaça do filho, seja como filho, seja mais ainda como deputado federal, escravo da legalidade.

A esquerda não é santa, longe disso, seus líderes têm folha corrida e alguns deles, respeitáveis, migram para o regime semi-aberto. A esquerda, sem dúvida, não engoliu a eleição atípica e circunstancial de Jair Bolsonaro. Mas a esquerda faz o que fez Jair Bolsonaro quando na oposição: bombardear o adversário (inimigo, na concepção dele) sem quartel, como diria o desabrido tenente. Acontece que democracia é equilíbrio instável entre contrários.

Quem arbitra o conflito nas democracias, mesmo instáveis – vide Alemanha, França e Itália, vide Argentina – são as instituições no quadro dos poderes, autônomos e interdependentes, diz a Constituição. Isso no evangelho que vem de John Locke, passando pelos Federalistas dos EUA e pelo Abade Seyès. No evangelho dos Bolsonaro, a cada dia mais se demonstra, a reza é outra, vai de Hitler a Mussolini, liturgia de Joseph Goebbels.

Só pela apóstrofe, mais imbecil que atrevida, o deputado merece cair no conselho de ética e ter cassado seu mandato. O que diz, a ameaça, o saudosismo do período negro história recente, não tem sequer a cobertura protetora da imunidade parlamentar da liberdade de expressão, porque o deputado incita à violação da Constituição. Estivesse nos EUA como embaixador aprenderia que por menos o presidente Trump enfrenta um impeachment.

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Foi o porteiro!

CLÁSSICA em romances ingleses de mistério, não descoberto o criminoso, a suspeita cai sobre o mordomo. No Brasil, o porteiro é o equivalente do mordomo. Esse porteiro do condomínio de Jair Bolsonaro não perde por esperar. A polícia ainda o acusa de ter assassinado a vereadora e o motorista.

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Princípios de Goebbels

1. Simplificação e Inimigo Único: Simplifique, não diversifique, escolha um inimigo por vez. Ignore o que os outros fazem; concentre-se em um até acabar com ele

2. Contágio: Divulgue a capacidade de contágio que este inimigo tem.  Colocar um antes perfeito e mostrar como o presente e o futuro estão sendo contaminados por esse inimigo

3. Transposição: Transladar todos os males sociais a esse inimigo

4. Exagero e Desfiguração: Exagerar as más noticias até desfigurá-las, transformando um delito em mil delitos, criando com isso um clima de profunda insegurança e temor. “O que nos acontecerá?”

5. Vulgarização: Transformar tudo numa coisa torpe e de má índole. As ações do inimigo são vulgares, ordinárias, fáceis de descobrir

6. Orquestração: Fazer ressoar os boatos até que se transformem em notícias sendo estas replicadas pela “imprensa oficial’

7. Renovação: Sempre bombardear o inimigo escolhido com novas notícias para que o receptor não tenha tempo de pensar, pois está sufocado por elas

8. Verossímil: Discutir a informação com diversas interpretações de especialistas, mas todas contra o inimigo escolhido. O objetivo é que o receptor, não perceba que o assunto não é verdadeiro

9. Silêncio: Ocultar toda a informação que não seja conveniente

10.Transferência: Potencializar o fato presente com um fato passado. Sempre que noticiar um fato acrescentar um fato anterior

11. Unanimidade: Buscar convergência em assuntos de interesse geral,  apoderando-se do sentimento  produzido por estes e colocá-los contra o inimigo escolhido

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O presidente e a inércia

A GLOBO não precisava pagar esse vexame ao anunciar que o assassino de Marielle Franco esteve na casa de Jair Bolsonaro, no Rio. Baseou-se no depoimento do porteiro do condomínio, desautorizado no dia da divulgação, mas prestado com antecedência suficiente para merecer checagem não só da fonte – polícia, ministério público estadual, governo do Estado? – como do próprio porteiro.

O jornalismo da emissora perde em credibilidade, vício que se aponta à Globo desde o debate entre Lula e Fernando Collor, e se acentua agora no noticiário crítico que faz ao presidente da República. Bolsonaro não precisa de noticiário editorializado nem de sofreguidão na divulgação dos fatos. Ressalve-se que, bem ou mal, preferível a Globo viciada ao ‘Informativo Goebbels’ da milícia bolsonara.

Jair Bolsonaro é o maior adversário de si mesmo, ele e os filhos valem por três bancadas de oposição reunidas, sem contar a existente em seu próprio partido. Ele cairá sozinho, pela força inercial de seus erros. O noticiário objetivamente analítico é suficente para combatê-lo. Com a mancada, a Globo abre espaço de suspeita sobre qualquer notícia mais aguda sobre o presidente.

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Tradução

Admitir sua inobservância, quando preenchidos os requisitos legais, com base em mero elemento volitivo, despido de razões fáticas ou juridicamente lógicas e razoáveis, implicaria negar o próprio regime legal, em afronta ao Estado de Direito.

DO DESPACHO da juíza federal Carolina Lebbos sobre a recusa de Lula em deixar a prisão pelo regime semi-aberto. Na tradução do juridiquês ao português: “Lula, não encha o saco, vai te catar e pára de pôr chifre em cabeça de cavalo”.

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Punhetas

“Parece que dei punhetas à virgem e enxuguei o chão com o santo sudário”.

É A EXPRESSÃO lusitana para o grande azar. Como este de ser assediado por “amigos comuns” no Facebook, gente da direita bolsoignara mais radical e sem noção. A propósito, punheta em Portugal é o equivalente ao gesto brasileiro de dar bananas. Punhetas e bananas a eles.

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O doutor compota

SÉRGIO MORO é que nem macarrão: duro no pacote, mole na panela. Quando juiz da Lava Jato, era aquilo que Deltan Dallanhol trouxe em inglês dos EUA: my way or the highway, equivalente ao nosso ou dá ou desce. Como ministro ele fala com algodão na língua, liso como pêssego em calda driblando garfo.

Investido pelo presidente Jair Bolsonaro de mandato ad judicia et extra para investigar o depoimento do caseiro de seu condomínio – caso da visita de um dos suspeitos da morte de Marielle Franco -, o ministro saiu-se com um débil e fraco “pode ser equívoco” do porteiro. O filho 02 já chegou na frente e limpou o terreno.

Advogado tem que levantar pras dez, dizer que é mentira, como os que Moro peitava, impávido colosso na Lava Jato, como o de Dilma no impeachment, o doutor José Eduardo Cardozo, também ministro da justiça. Se continuar nessa de doutor compota logo Carluxo Bruxo o enquadra no modo Bebianno.

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Um parto de craque

NEYMAR discute na justiça os honorários do médico que fez o parto de seu filho, em 2011. Diz que o valor é excessivo, acima do combinado. Quem tem razão não interessa, interessa saber quanto seriam os honorários do médico que fez o parto da mãe de Neymar. O doutor poderia até pedir reajuste dos honorários, pois seu serviço foi tão bom que produziu um craque bilionário. E pão duro.

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Dedicatórias

PARECE QUE FOI ontem que os livros presenteados vinham com dedicatórias, elaboradas, sentimentais, bobas até. Quem presenteava queria mostrar afeto e – por que não? – dar-se importância na escolha do livro caro, raro, badalado, complicado. Desde ontem as editoras cresceram, criaram suas livrarias, aumentaram as tiragens, inundaram-nos de livros. 

Hoje os livros são presenteados como cintos, lenços, camisas, pijamas, que recebemos fingindo gostar. São como esses outros presentes: não gostou, devolve, troca por outro. Recuso a ver nos livros presenteados o mérito e o destino das meias que essa prima insiste em presentear: a cor que detesto, o tecido que causa alergia e que entopem a gaveta das coisas novas e imprestáveis. 

As dedicatórias eram o selo de inalienabilidade dos livros: impediam a devolução e a troca na livraria. Tive pelo menos dois casos em que os amigos que me presentearam e tempos depois, ofendidos até a alma, apareceram com os livros, readquiridos no sebo, onde eu os descartara sem a cautela de arrancar as páginas da dedicatória.

Dedicatórias causam constrangimento, como o colega de faculdade que escreveu que convivendo comigo passara a repensar a vida. Nunca tivemos a intimidade que o levou a repensar a troca da mulher pelo colega de escritório. Só sosseguei quando descobri a fonte literal da dedicatória: um romance francês.

Daí ser admirável o sistema atual: livros sem dedicatória. Mas tem o inconveniente de funcionar só para leitores por lazer: as livrarias grudam uma etiqueta com a data de compra e o prazo da troca, máximo de sete dias. Quem avalia um livro em sete dias? Não funciona com os que têm leituras pendentes, acumuladas, como você, eu e o meu amigo Renato Kanayama, craque nas dedicatórias, ainda casado com a mulher inaugural.

Estas mal traçadas vão em preito de gratidão às boas almas que com rara felicidade me presentearam – sem dedicatória – há mais ano estas duas preciosidades, O Tradutor Cleptomaníaco, de Dezsö Kosztolányi, e A Visita de João Gilberto aos Novos Baianos, de Sérgio Rodrigues. Que não troco, vendo ou empresto.

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