Alhás

CRUZO com ela todos os dias, de regra nas primeiras horas da manhã, sempre no elevador. Às segundas-feiras o encontro é especial, porque é dia seguinte ao domingo. E domingo é o dia que passa inteiro, noite inclusa, com o namorado. O namorado se diz cozinheiro. Tenho dúvidas. Meu dispositivo de análise culinária é o simples, tradicional: olfato e paladar. O namorado cozinha alho com tudo. O tudo, no caso, é o complemento do alho, não o contrário.

Dia desses não aguentei, ela de saída, eu de entrada no elevador, alho por todos os cantos e poros: “Querida, esse cara quer te afastar de homens e vampiros. Te enche de alho no domingo, se manda por uma semana, e você espanta todo mundo no bafo”. Fosse só ela, passava, mas o alho me persegue, mais forte também nas segundas: na academia é a mesma coisa, o democrático bodum. Pelo jeito, no domingo o povo se esbalda no alho. 

O alho é um traço do caráter brasileiro. Alho demais na comida, de casa, do restaurante, qualquer um, bom ou ruim. O alho compromete a vida amorosa: só depois de meia hora de beijos e troca de fluidos ele se dissipa; imagine o sacrifício do amante não alhado. O odor de alho povoa a cidade, vem dos restaurantes populares, de onde saem escriturárias e comerciárias tão bonitas quanto baforentas. Que depois, na empresa,  empestam o ambiente.

A Vigilância Sanitária teria que ver essa coisa. Alho baixa a pressão arterial, afeta o estômago, complica o convívio, reduz a produtividade, pois induz ao sono. Neste momento sou alvejado pelo vizinho que faz a panelada de alho com feijão para a semana. Ele no térreo, eu no vigésimo. O cheiro é forte aqui em cima, mesmo sem vento encanado. Derruba minha pressão, que regulo com Johnny Walker. O alho do vizinho já me levou ao desmaio, só pelo cheiro. Agora me faz rondar o alcoolismo. 

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