Barbaridade

LEVEI tia Zoraide ao médico. Com problemas de locomoção, apoiada em meu braço, receou cair a caminho do gabinete médico, “esse assoalho é muito liso”. Como fazia comigo ao me alfabetizar,  sempre brinco de corrigi-la, por exemplo: ‘não é doeu, é do-eu, hiato, não ditongo’. Nascida e criada em Três Barras, às vezes o ditongo teima em brigar com o hiato. Ela leva na boa, fez digna e elogiada carreira de professora no colégio Júlia Wanderley e da Escola de Aplicação, em Ponta Grossa.

Mas o ‘assoalho’ me caiu mal: ‘Tia, é piso, não assoalho, pois não é de madeira’. Ainda afiada aos 83, ela saca rápido: “Gozado, a Gleisi pode falar que a sentença contra Lula foi uma ‘barbaridade’. É senadora, foi ministra, diretora de multinacional, presidente do PT e usa língua de barraca de feira. Se ela diz barbaridades, por que eu não posso trocar piso por assoalho”. Lembrei dos castigos que me passava na escola e calei.

Afinal, quem gosta mesmo de piso é petista de duplex. Nós brasileiros comuns vamos de assoalho de madeira mesmo.

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