Dèjá vu

HÁ UM CHEIRO de Eduardo Cunha no ar. Aos que viram a luz com o anjo Bolsonaro não custa explicar: Cunha foi o todo poderoso presidente da câmara dos deputados no governo Dilma e o político que torpedeou seu governo a ponto de levá-la ao impeachment e à perda do mandato. Dilma caduta, Cunha finito: excedeu-se na cupidez da corrupção e acabou cassado e condenado. Se os guias que iluminam o ministro Dias Toffoli influírem no STF, Cunha será reabilitado com todas as honras, inclusive a devolução das propinas que recebeu. (Não exagero, o STF vive um momento de expiação de coletiva da culpa por chancelar abusos da Lava Jato).

Entre Cunha e Arthur Lira, o atual presidente da câmara, há similitudes a partir do cargo, do exercício arrogante do poder e das pressões que exerce sobre o presidente da República. Reconheça-se que enquanto presidente da câmara não há acusações de corrupção graves contra Lira; e seus métodos não são brutais, grosseiros e até obscenos como os de Eduardo Cunha. Acontece que o diabo está nos detalhes e o tempo tem essa mania de reiterar curas para doenças nem sempre com a mesma sintomatologia. Daí o cheiro de Eduardo Cunha a empestar Arthur Lira, seu equivalente nos tempos atuais. É a coisa vista, o dèjá vu dos franceses.

Desde que assumiu a presidência da câmara Lira tem escapado de armadilhas, como a do orçamento secreto para empresa de assessor seu em Alagoas, em cujo escritório foram encontrados cheques da empreiteira da obra/serviço. Sem falar de seu contencioso conjugal, com acusações de agressão e até partilha de bens mediante contrato de gaveta de dação informal em pagamento de imóvel de Fernando Collor para Lira (nos padrões alagoanos transação límpida e sacral). Como Cunha, Lira não conhece limites para sua fome de poder e ao respectivo exercício baseado na relação fisiológica que mantém com partidos, deputados e líderes na câmara federal.

Ao que parece o governo chegou a uma situação-limite com Lira (a menos que Lula pratique mais uma de suas metamorfoses para esfriá-la). Trata-se do Programa Perse, da desoneração de tributos de empresas, denunciado hoje como artimanha de corrupção pelo ministro Fernando Haddad, da Fazenda. Na saudação de ontem pela abertura dos trabalhos da câmara, Lira se antecipou na defesa do programa, aprovado sob seu patrocínio. Nada surpreendente, o ministro Haddad denunciou os abusos no programa, como mais um episódio de lavagem de dinheiro, no qual os R$ 4 bi da desoneração prevista atingiram R$ 34 bi.

E nós estamos sem Sérgio Moro para enquadrar os vendedores de indulgências – que pelo menos contam com a indulgência futura da jurisprudência Toffoli. Nestas horas só podemos antecipar que vem aí um grande acordo das elites: os políticos corruptos, os empresários fraudadores, o STF às turras com o legislativo de um lado; de outro nós outros, os inocentes úteis e inúteis.

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