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Postado em jul 11, 2019 | 0 comentários

O alvo errado

A ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DO PARANÁ lança manifesto contra o reajuste dos salários para os funcionários do Paraná. A entidade está no papel dela, conservadora na economia, sempre, desde o tempo do Barão do Serro Azul até o recentemente desaparecido impostômetro da fachada. Soa estranho uma associação de comerciantes contra aumento de salários e consequente injeção de dinheiro no comércio.

Acontece que só parece estranho para os neokenesyanos, que fazem o sinal da cruz ao passar pela frente da ACP: é que lorde Keynes acreditava no estímulo econômico pela circulação de dinheiro e pleno emprego, aquilo de sendo preciso contrata-se gente para enterrar garrafas na areia e depois contrata-se outros para as desenterrar. Se quiserem chamar a ACP de reacionária, assino embaixo. Com muito respeito.

A ACP, no entanto, mira no alvo errado, os funcionários, que reivindicam o reajuste – e são todos. Eles têm a justa e estimulada expectativa do reajuste. Primeiro porque a constituição assegurou-lhes a correção dos vencimentos, que estão defasados há quatro anos. Segundo – e aqui o alvo errado da casa dos comerciantes -, se alguém errou foi o governador do Estado, ao alimentar a expectativa dos funcionários.

À entidade decidiu ignorar dois fatos. 1 – O atual governador foi secretário de Estado no governo anterior, pelo que deveria estar informado da situação das finanças; se não estava informado, quem era o candidato que dissertava com tanta proficiência sobre o governo do Paraná? 2 – Resposta: era o mesmo que, ao retornar ao mandato de deputado, assinou projeto de lei de reajuste para os funcionários.

O manifesto conservador-comerciante invoca a responsabilidade fiscal: conceder aumento seria irresponsável com o Tesouro. Tem lá sua razão, ninguém está completamente certo ou completamente errado. A ACP, no entanto – e nem precisamos investigar o motivo – esquece outra irresponsabilidade: a do político que promete reajuste salarial em época de eleição sem saber se poderá pagá-lo uma vez eleito.

Não seremos ingênuos de afirmar que só o atual governador fez promessa vã. Todos fazem, mais que todos o governador de quem foi secretário, hoje com ficha corrida maior que o currículo. Interessa saber a quem o governador fez a promessa eleitoral do reajuste. Aos funcionários, óbvio. E por que fez exato essa promessa? Porque os funcionários são massa expressiva de votantes que elege os candidatos.

Embora Ivan Schmidt tenha partido e deixado imensa lacuna, tem gente na ACP que poderia fazer manifesto com melhor sociologia política que esse de economia política à Antonio de Oliveira Salazar, o economista e primeiro ministro de Portugal que comparava o orçamento público à economia da dona de casa: as despesas na folhinha dos santos e o dinheiro para pagá-las no açucareiro rachado.

A casa do comércio conhece a causa eficiente do problema: a promessa do governador quando candidato. Sabe, mas não a condena, porque não pode, não quer. Os comerciantes precisam do governador para os Refis e os estímulos fiscais. Mais, tem a benquerença construída em clubes, recepções e interesses, inexistente com a massa informe e impessoal dos funcionários – que nada mais fazem que cobrar sua fatura.

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