O dia dos otários

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NESSA HISTÓRIA da conspiração de Jair Bolsonaro para seu golpe o que sobra é o óbvio. Não é a surpresa de como estava podre o governo, como era grande o número de conspiradores, a maioria oficiais graduados das forças armadas, generais com longas carreiras, ministros com permanente exposição, políticos de carreira consolidada. Sobra o óbvio: que o brasileiro não tem capacidade de se indignar. Ia dizer perdeu. De imediato pensei o contrário: o brasileiro não perdeu porque ninguém perde o que  não tem. Isso de chamar o eleitor fanático de Bolsonaro de gado é injusto, porque no geral o brasileiro é de regra gado – no sentido de manso, apático, que segue obediente ao matadouro.

O resto é a elite, essa elite que, sempre no confronto interno, impediu que o golpe se consumasse. Precisamos ser gratos a essa elite, a que impediu o golpe. Sim, mesmo sabendo que em grande parte agiu pelo critério do cálculo, do custo-benefício: qual o prejuízo que uma nova ditadura traria para os negócios e a avaliação público-internacional do Brasil? Ou seja, a elite, seja a que apoiava Bolsonaro, seja que o julgava perigoso, disputavam num jogo de salão qual seria o futuro do Brasil. Aquela melhor aparelhada com maior presença no poder venceu. A outra escondeu-se como seu líder e Mito, à espera de receber o poder com o golpe em que manipulou maltrapilhos e ignorantes na desordem de Brasília no 8 de janeiro.

A História, sempre mestra, faz do 8 de janeiro nossa journée de dupes. Vale a pena relembrar. No reinado de Luís XIII – rei da época dos Três Mosqueteiros -, homem fraco, inseguro, cuja mulher o traía com nobre inglês, era alvo de disputa de força entre a rainha-mãe Maria de Médicis e o Cardeal de Richelieu, que criara sua rede de poder como primeiro-ministro. A rainha, que o indicara ao filho, em 10 de novembro de 1630 tenta derrubá-lo em golpe de mão, insuflando o filho contra o cardeal, mantido fora dos aposentos enquanto a rainha convencia o filho contra ele. Richelieu invadiu o encontro, onde, esculachado pela rainha-mãe, pediu perdão ao rei.

Sem apoio de Luís XIII, sentindo-se vencido pela influente rainha-mãe, Richelieu renunciou ao cargo e foi embora. A rainha-mãe e aliados cantaram vitória. Dia seguinte, Luís XIII visita e perdoa Richelieu, a quem confere todos os poderes e apoia em todas as decisões – que aumentaram o território e consolidaram o poder do monarca, apesar das sucessivas causaram ondas de fome no povo. A rainha-mãe, sempre conspiradora, morreu exilada na Holanda. Richelieu morreu em pleno exercício do poder. O episódio, entre 10 e ll de novembro ficou conhecido como journée des dupes, que podemos traduzir para ‘o dia dos otários’.

Nossa journée des dupes ocorreu em 8 de janeiro de 2023. Não vou especular se Jair Bolsonaro é nossa Maria de Médicis. Mas que leva jeito, isso leva. Como tal merece o exílio em Camboriú, engasgado com camarão cru.

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