Droga de ministro

No dia em que o Brasil atinge a marca vergonhosa dos 600 mil mortos pelo covid, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, declara que é “absolutamente contra” legislar tornando obrigatório o uso de máscara. Ele  usa, por obrigação. O que revela ser uma droga de ministro, pois ao usar admite que pode ser contaminado e contaminar os outros. Esse é o retrato do governo, cujo presidente enroscou a agulha de seu disco no ramerrão do tratamento precoce e na cloroquina. Bolsonaro e Queiroga dariam razoáveis anestesistas, a julgar pela anestesia moral e política que incutiram no Brasil.

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A absorvente fonte de custeio

Jair Bolsonaro explicou ao gado que o encontra na saída de casa que vetou o fornecimento de absorventes porque não foi definida a fonte de custeio da despesa. E se fizesse a despesa sem a fonte de custeio incidiria em crime de responsabilidade. Conversa pra boi dormir: era só ele mandar projeto de abertura de crédito adicional que a fonte apareceria; mas teria que suprimir outra despesa, para fins compensatórios. E isso poderia atingir uma despesa inútil, aprovada pelo Centrão e sancionada por ele Bolsonaro, como o kit covid ou a cloroquina.

Como o presidente não tem trava na língua nem raciocínio lógico, ele também disse que a despesa vinha de emenda de deputado do PT. Outra conversa pra boi dormir. O deputado não decide sozinho a emenda; ela é votada em bloco pela Câmara. Aquela coisa do falso esperto: para o gado bolsonarista, tudo que passa pelo PT é perigoso. Como se as mulheres bolsonaristas sem dinheiro para não pudessem receber de graça os absorventes. Mas vindo de Bolsonaro, as minionas usariam papel de jornal como fonte de custeio.

E como se não se o governo não pudesse, como em tantos casos, distribuir absorventes dando preferência aos Estados de eleitorado bolsonarista. Paraná e Santa Catarina, por exemplo, receberiam enxurradas de absorventes. Perdoe-se o enxurrada, aqui não intencional, mas útil. Se Micheque fosse esclarecida diria para o Mito na hora do amorzinho semanal: “Bem, hoje não, estou com problema na fonte de custeio, a perereca no banhado”. Seria mais um problema para o presidente que se diz “imbrochável”.

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De tiriva a baitaca

O governador João Dória patrocina a filiação da deputada Joice Hasselmann ao PSDB. De tiriva de Bolsonaro Joice passa a baitaca de Dória. Um grande passo para a deputada, um tropeço para o governador.

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Cuspir para cima

O site Poder 360 publica hoje a pequena relação de famílias da mídia que mantêm offshores, dinheiro em paraísos fiscais. Já os bolsomínios circulam com o chiste: “Se você é contra offshore é porque é pobre”. Faz sentido. A ironia disso é que os próprios bolsomínios não estão com essa grana toda. Grana têm os que compram barato mansões caras em Brasília e fazem fortuna com dinheiro de funcionários do gabinete. Os que criticam as contas estão na pior, porque sem dinheiro. Os que defendem as contas sem ter dinheiro são daqueles que se divertem cuspindo para cima.

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Modess e Progresso

O governo Bolsonaro veta a distribuição gratuita de absorventes higiênicos. Tem duas questões aqui. A primeira é que o presidente da República não gosta de mulher, mesmo tendo casado com três (não é ele quem diz que sua filha nasceu em falha de planejamento, porque prefere filhos homens?). A outra é o Brasil mesmo, terra da corrupção. Com distribuição gratuita o que teria de deputado, vereador e prefeito aprovando verba para comprar absorvente – para homem, mulher de fraldas, mesmo macróbias com bodas de ouro na menopausa. Tanto que a bandeira teria que mudar o lema para Modess e Progresso. O governo Bolsonaro é tão retrógrado que acredita na volta das toalhinhas higiênicas – “as do tempo de nossas avós”, como dizia a propaganda.

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Faz de conta

A CGU e a PF investigam a cobrança de comissões em emendas parlamentares. Coisa simples: o parlamentar, deputado ou senador, inclui recurso no orçamento para determinada prefeitura fazer obra ou compra; depois cobra percentual (fala-se em 20%) sobre o valor gasto, incluída na fatura. Se fosse assunto de agora seria de pasmar, derrubar a república. Acontece que o expediente é velho. Já ouvi ex-parlamentar louvando em público as vantagens do sistema e até sua razoabilidade (?!). O assunto voltou agora com celeuma da escandalosa jogada parlamentar do governo Bolsonaro para transferir dinheiro para prefeituras comprarem tratores. A manobra tem as digitais do ministro do Planejamento e das lideranças na Câmara dos Deputados. Vinha funcionando, fora denunciada na imprensa de imediato e imediatamente esquecida. Acabou suspensa pelo TCU depois de algum tempo de aplicação.

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Muito barulho por nada

O ministro Paulo Guedes está indignado com a celeuma de sua offshore, o dinheiro que tem aplicado em paraísos fiscais. Tem razão. O que é isso comparado com as rachadinhas da família Bolsonaro, do lobby de Michele na CEF e dos negócios de Jair Renan tramados dentro do Palácio do Planalto? Tem mais. Por que só agora? Onde estavam a Receita Federal, a Controladoria da União e a Comissão de Ética Pública desde que tomou posse? Nada fizeram, aliás, nem quanto aos conflitos de interesse que pululam nas ações dos poderes em Brasília. Precisou a imprensa denunciar; claro que a imprensa foi municiada de dentro do governo. As informações sobre o dinheiro do ministro da Economia estavam lá, disponíveis para chamá-lo a explicar. O ministro, como sempre, é seu pior inimigo: diz que nunca recebeu rendimentos do dinheiro das offshores. Parece resposta de menino travesso. Se isso não for abafado neste momento, eventuais consequências serão anuladas pelo STF, como este vem fazendo com a Lava Jato, um escândalo que virou pó.

Sem dúvida que há uma questão ética séria: o responsável maior pela política econômica manter investimentos que podem ser favorecidos por essa política. Aqui entra a aliança entre a hipocrisia e a jogada política. A hipocrisia está em que Guedes não inaugurou o método de dirigentes do Estado aplicarem dinheiro em paraísos fiscais; chega a ser mecanismo inocente comparado com as propinas em emendas parlamentares e obras públicas, ou na produção de leis e medidas provisórias para favorecer empresas. (Uma passagem pela história da política financeira revelará que não existe ex-ministro da Fazenda ou ex-presidente do Banco Central pobre no Brasil. Deve ser o tal milagre brasileiro). A jogada política ainda não está clara quanto aos agentes e beneficiários. Mas seguramente parte da imprestabilidade súbita do ministro e até de sua dispensabilidade pelo presidente da República; afinal, queimar Paulo Guedes por um escândalo branco afasta a atenção para os escândalos reais e a política homicida de Jair Bolsonaro – sobre os quais o ministro da Economia não tem a mínima responsabilidade.

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Revoluções e corrupções

Pancho Villa, o caudilho e herói da Revolução Mexicana, foi apresentado ao Modelo T, o primeiro automóvel da Ford. O gringo mostrou o carrinho e enalteceu ao caudilho aos qualidades do motor: “Hace 2 mil revoluciones por minuto”. A impagável resposta de Villa remete ao ambiente histórico, das revoluções que se sucediam no México: “?Dos mil? !Muy poco!”.

O governo Bolsonaro funciona como o Ford apresentado a Pancho Villa, ajustado o vocabulário ao ambiente histórico, trocando-se a revolução pela corrupção: “Duas mil corrupções? Muito pouco”. Não é mérito exclusivo de Bolsonaro, sejamos justos; é o caráter brasileiro, dos escândalos que se sucedem e sobrepõem, o de hoje atenua a evidência e o impacto do de ontem.

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Senatus inconsultus

Os senadores do Paraná esconderam-se depois que a pandemia atingiu os 500 mil mortos. Nenhum protesto, nenhum requerimento, uma denúncia sequer, um passeio que fosse pelo STF para denunciar o governo Bolsonaro – contra quem exercem uma oposição branca, sem tugir nem mugir. Nem se dignaram a pisar na CPI do Covid, aberta a todos os senadores, como faz Flávio Bolsonaro, um não membro que vai lá para defender asseclas do pai e atacar Renan Calheiros.  Agora, vacinados e escolados, saem da toca, a começar pelo chefe (nossa bancada tem chefe).

Álvaro Dias afirma que não será candidato a presidente – como se alguém, a não ser ele no espelho, esperasse a candidatura. Em seguida Oriovisto Guimarães descobri o pelo no ovo e sugere três turnos na eleição para presidente da República; parece que tem ações de fábrica de facas. Então que venham três turnos para o Senado, que votaremos em Roberto Requião, contra quem, em protesto, elegemos Oriovisto. Requião, ainda que péssimo governador, fazia o serviço que se espera de um senador. Só nos falta agora a patacoada do senador Flávio Arns.

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O sonho de Temer

O ex-presidente Michel Temer recusa apoiar a terceira via, pois vê nela o divisionismo. Ou seja, confia na disputa Lula versus Bolsonaro. Deve ser cálculo político de alguém que espera ser vice de um ou de outro. E de novo receber a presidência no colo, sem votos, pelo impeachment. Para quem desceu foi do céu ao inferno e passou a jato pelo purgatório, o sonho é meia realidade. Temer sabe que o brasileiro esquece e pisa novamente no mesmo lugar do cocô do cachorro.

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