Sexo & Política

Donald Trump, o presidente dos EUA, está sob assédio da imprensa, agora sob a suspeita de ter comprado o silêncio de Stormy Daniels, atriz do cinema pornô que na vida civil atende pelo nome de Stephanie Clifford: teve um caso com ela em 2006 quando Melania, a atual primeira dama, estava grávida. O assunto veio à tona em 2011 e acabou requentado em 2016, durante a campanha presidencial. Trump, é claro, negou – como fazem os políticos quando apanhados em falseta e ele mais que qualquer outro. Teria comprado o silêncio da atriz com US$ 130 mil. Agora volta ao noticiário seja porque o candidato Trump mentiu, seja porque mente tanto como presidente que essa é mais uma mentira para desgastá-lo.

A quem olha de longe e sem paixão é pura hipocrisia. O assunto interessa desde sempre à mulher de Trump. O eleitor do presidente e os políticos de seu partido, o Republicano, aceitam tudo que ele faz e diz. A imprensa, a oposição a Trump e os intelectuais de esquerda – lá chamados de ‘liberais’ – usam o episódio na guerra permanente de desgaste contra o presidente, que tem histórico de incorreção política com as mulheres (disse uma vez em entrevista gravada que sua técnica de sedução era ‘grab them by the pussy’, agarrá-las pela perereca). Interessa à atriz, vá-la que seja esse o nome para o cinema pornô, mera prostituição virtual, que se valoriza no respectivo mercado.

Não é caso de assédio sexual, como esses que têm derrubado diretores, produtores, atores de cinema e até um senador com histórico progressista, pois não aconteceu no exercício do cargo. A oposição que combate Trump pelo caso com a atriz pornô ignora o presidente Bill Clinton, de seu partido, que fez estripulias sexuais com Mônica Lewinski, a estagiária, em plena Casa Branca. Sua mulher, também democrata, disputou a presidência com Trump e fez vazar o episódio de Trump com a atriz. Aliás, Clinton, quando candidato, teria pago US$ 800 mil para uma funcionária do estado de Arkansas, onde foi governador, por assédio: ela foi grabbed by the boobs. Boobs significa ‘seios’, em inglês.

O poder – e o dinheiro, no caso de Trump só bilionário quando se envolveu com Stormy Daniels – é um grande afrodisíaco. Em toda a História, em todos os tempos, desde os papas até Renan Calheiros, que conseguiu que empreiteira pagasse mesada para a namorada. Quem viveu e tem memoria coleciona casos brasileiros, como Getúlio Vargas com Aimée de Heeren, mulher de alto burocrata de seu governo, de Juscelino Kubitschek, que deu cartório para o marido de sua amante. No Sul tivemos o governador que mandava buscar vedetes no avião do governo (seu piloto-alcoviteiro ganhou um cartório) e, para encerrar o serviço de fofocas, aquele que abria a revista masculina e só apontava a mulher nua – e o assessor providenciava na hora.

A moralidade varia conforme a latitude e os costumes. Entre os anglossaxões, EUA e Inglaterra, os valores puritanos impões expiações para o político que se deleita na sexualidade fora do tálamo. Entre nós, latinos, até nos da Europa, a tolerância é grande, elástica até demais, ao ponto de tolerar o uso do bem público para financiar o luxúria do político (lembram da secretária que viajava com o presidente-mito-santificado da América Latina?). Seria até tolerável, observadas as exigência de discrição e não uso do dinheiro público para as estripulias dos políticos – e aqui falo dos nossos, os latinos ladinos. Discretos todos são, como de resto em toda as áreas da impostura. Quanto ao dinheiro público, ah este se esvai no jorro da concupiscência.

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